Lula volta a ser ‘o cara’; Reforma é ultima tentativa de Dilma para salvar governo; “Nosso ponto focal de apoio tem que ser o ex-presidente Lula”; O golpe de Lula Eliane Cantanhêde
 Lula volta a ser ‘o cara’

02 Outubro 2015 | 02h 55
Tudo indica que Lula da Silva conseguiu finalmente subjugar sua criatura e assumir o comando político do governo. Não chega a surpreender, diante da mais do que comprovada incompetência política de Dilma Rousseff, que vinha comprometendo o futuro de seu frustrado preceptor e do PT. Assim, volta ao proscênio da política nacional o maior responsável pela crise política, econômica e moral que infelicita o País.

Quanto mais em evidência estiver, tanto mais serão cobradas de Lula explicações sobre seu papel no mar de lama que inundou a administração pública federal sob seu comando direto e, depois, sob o desgoverno do poste que inventou para, deliberadamente, desmoralizar as instituições e o regime. A notícia revelada ontem com exclusividade pelo Estado, de que o governo Lula estaria envolvido num cabuloso esquema de lobby para favorecer a indústria automobilística com a edição, em 2009, de MP que prorrogou o desconto do IPI sobre veículos, é apenas mais um elemento a fortalecer a evidência de que o então presidente da República, a exemplo de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, tem explicações a dar à Justiça e ao País. Até porque aponta um dedo acusador para Lula a recomendação de que quem enriquece na política deve ser observado sempre com alguma desconfiança.

A partir de agora Lula deixa de ser apenas um líder partidário generosamente determinado a dar sua contribuição para tirar o Brasil do buraco para se tornar o protagonista da ação governamental. Ninguém mais se dará ao trabalho de cobrar soluções para a crise de uma presidente da República que foi forçada a abdicar de seu poder político, que transferiu em comodato. Agora mandam Lula e as raposas peludas do PMDB, por intermédio de homens de confiança colocados em postos-chave do governo. É claro que, por uma questão até de bons modos, a Dilma será sempre oferecida a opção de concordar com as medidas adotadas pelo governo que ela não pode mais chamar de seu. E o que isso significa?

A julgar pelo que o dono do PT tem dito a interlocutores e proclamado ao distinto público, é preciso impor rapidamente uma “agenda positiva” para o governo, o que significa, na linguagem lulopetista, dizer coisas que as pessoas gostam de ouvir. Lula deve continuar imaginando que o brasileiro é idiota. Como ainda não inventou nada de novo e interessante para anunciar, gastou todo o tempo de uma inserção publicitária do PT na TV dias atrás jactando-se de ter tirado o Brasil do “mapa da miséria da ONU”, de ter promovido à classe média “mais de 40 milhões de brasileiros” e criado fantásticos programas sociais. O que havia de verdade em toda essa jactância populista está se dissipando com a crise, pois o que Lula e Dilma fizeram foi assistencialismo elementar, sem as medidas adicionais que de fato promovem a ascensão social. Um discurso populista requentado não renderá aplausos.

Pior é o fato de que, para manter coerência com a determinação de criar uma “agenda positiva”, será necessário reduzir ao mínimo as medidas de austeridade do ajuste fiscal, quase todas elas impopulares. Isso acabará inviabilizando o ajuste, que é precondição para a adoção de qualquer medida eficaz para a retomada do crescimento econômico. Pois o que o chefão do PT está propondo é a pura e simples repetição da “nova matriz econômica” que funcionou enquanto o Brasil surfava nas águas tranquilas da bonança econômica mundial. Uma fórmula cuja overdose acabou resultando na crise que colocou a economia brasileira na beira do precipício.

O estado atual da economia não permite que o “novo governo” vá simplesmente empurrando a situação com a barriga. Diante da enorme incoerência representada pela promessa de conciliar o inconciliável, a pergunta inevitável é a seguinte: afinal, o que Lula tem de fato em mente? Agravar um impasse que, no limite, o libere para chutar o balde, botar toda a culpa em Dilma e no PMDB e virar oposição? É razoável supor que ele tenha fortes razões pessoais para obter as imunidades que imagina devidas a um salvador da Pátria. De quebra, presidiria o País, de novo, a partir de 2018. Que os céus nos protejam!

Reforma é ultima tentativa de Dilma para salvar governo

Marcelo de Moraes

02 Outubro 2015 | 11h 59
As mudanças ministeriais decididas pela presidente Dilma Rousseff levam em conta o puro pragmatismo. Com apenas 10% de aprovação popular, segundo pesquisa do Ibope, pressionada pela sombra do pedido de impeachment no Congresso e com a economia em frangalhos, a presidente decidiu entregar os principais cargos do seu governo em troca de apoio para salvar seu mandato. Simples assim.

Não há presidente na história recente do País que não tenha feito concessões políticas para aliados na hora da composição de seus principais escalões. Em troca de apoio político, entregam-se os cargos. É péssimo - e os resultados ineficazes das políticas públicas brasileiras mostram esse prejuízo -, é condenável, mas já faz parte do jogo político. Não se trata de nenhuma inovação. A novidade é um governo ser obrigado, agora, a atender desafetos e críticos ferozes para tentar preservar o pescoço da degola.

A presidente Dilma Rousseff e o vice Michel Temer conversam no Palácio do Planalto, durante cerimônia para anunciar a reforma ministerial do governo
A presidente Dilma Rousseff e o vice Michel Temer conversam no Palácio do Planalto, durante cerimônia para anunciar a reforma ministerial do governo

Dilma faz a reforma para tentar apagar o "fogo amigo" disparado principalmente pelo PMDB e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, críticos constantes durante os pouco mais de nove meses de duração do seu segundo mandato.

Nem no auge da parceria política com o PT o PMDB conseguiu tanto espaço quanto agora, justamente no período em que mais fustigou o governo dentro do Congresso, aprovando ou ameaçando aprovar projetos que colocam em risco a já combalida economia nacional. São sete ministérios, agora, sob o comando dos pemedebistas.

Ciente da fragilidade de sua situação política, a presidente aceitou desagradar seu próprio partido e passar pelo constrangimento de demitir o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, poucos meses depois de nomeá-lo para o cargo com o discurso de trazer um especialista renomado para finalmente tentar transformar em realidade seu slogan da chamada "Pátria Educadora". Por causa dos arranjos políticos, Janine espirrou para que o ministro Aloizio Mercadante pudesse voltar a ocupar a pasta, depois de perder a Casa Civil para Jaques Wagner e atender ao desejo de Lula e melhorar a relação com o Congresso.

Provocou também mal estar ao rifar o ministro da Saúde petista, Arthur Chioro, num telefonema expresso de dois minutos de duração e dando seu cargo para o PMDB. 

Tamanho grau de concessão traz alívio momentâneo para o governo. Mas, sendo obrigada a ceder tanto, Dilma corre o risco de virar refém definitiva dos parceiros, sem garantir a preservação de seu mandato.

 
“Nosso ponto focal de apoio tem que ser o ex-presidente Lula”
 

 
 

 
Por Ricardo Brandt, Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo
 

02/10/2015, 15h45

E-mails de executivos da cúpula da Andrade Gutierrez revelam que grupo buscou apoio do petista para intervir em negócios na Venezuela; Instituto Lula afirma que o ex-presidente "não faz e nunca fez lobby ou consultoria"
E-mails de executivos da cúpula da Andrade Gutierrez, apreendidos na sede da empresa, agora juntados aos autos da Operação Lava Jato, revelam que o grupo buscou apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para intervir em negócios na Venezuela.

Às 12h13 do dia 20 de março de 2014, Sérgio Lins Andrade, dono da Andrade Gutierrez, escreveu para Otávio Marques de Azevedo, presidente da companhia, e a outros executivos da AG. “Isto pode complicar a situação dos contratos lá. Abs”, referindo-se a uma reportagem de jornal que indicava disposição da presidente Dilma Rousseff (PT) em se ‘distanciar’ da Venezuela.
Em resposta, ao e-mail de Sérgio Andrade, o executivo Flávio Gomes Machado Filho escreveu às 12h24, citando o presidente da Venezuela Nicolás Maduro. “Temos que tomar todos os cuidados. O Presidente Maduro já está incomodado com essa postura dela há algum tempo. O nosso ponto focal de apoio tem que ser o ex-Presidente Lula. O Pres Maduro reconhece como um grande amigo pessoal e um grande amigo da Venezuela.”

Quatro minutos depois, Flávio Gomes Machado Filho acrescentou. “Estou marcando um encontro com o Pres Lula na próxima semana em SP para discutir com ele a situação da Venezuela e uma estratégia de apoio. Abs, Flavio.”
Segundo Otávio Marques de Azevedo, em depoimento à Polícia Federal, em 19 de maio deste ano, Flávio Gomes Machado Filho foi diretor de Relações Institucionais da Andrade Gutierrez entre 2004 a 2012.

O presidente do grupo, Otávio Marques de Azevedo, está preso desde 19 de junho, quando foi deflagrada a Operação Erga Omnes, 14ª etapa da Lava Jato.

COM A PALAVRA, O INSTITUTO LULA

O ex-presidente Lula sempre atuou legitimamente em defesa do Brasil e das empresas brasileiras nos mercados internacionais, e continuará exercendo esse papel, sempre que possível, como fazem ex-governantes responsáveis de diversos países. O ex-presidente não faz e nunca fez lobby ou consultoria. A lista das empresas que contrataram palestras do ex-presidente, por meio da empresa LILS, está publicada pelo Instituto Lula neste endereço: http://www.institutolula.org/as-palestras-de-lula-a-violacao-de-sigilo-bancario-do-ex-presidente-foi-um-ato-criminoso. Outras informações sobre as palestras foram prestadas espontaneamente ao Ministério Público, para esclarecer os fatos e desafazer ilações indevidas em Notícia de Fato protocolada na Procuradoria da República no Distrito Federal. O Instituto Lula não comenta vazamentos seletivos de procedimentos judiciais nem documentos supostamente oficiais extraídos de seu contexto.

Assessoria de Imprensa do Instituto Lula

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ

A Andrade Gutierrez informou que não vai comentar.
 
O golpe de Lula

Eliane Cantanhêde

02 Outubro 2015 | 05h 00

Luiz Inácio Lula da Silva nem esperou a eleição de 2018 e já está de volta ao poder, enquanto Dilma Rousseff faz o caminho inverso, rumo à condição anterior de subalterna do líder e padrinho. O ministério a ser finalmente anunciado hoje é do Lula, não da Dilma, que vai entregando anéis, dedos, mãos e está cada vez mais com a cabeça a prêmio. Ou sofre impeachment pela oposição ou é interditada por Lula e pelo PMDB.

Dilma anuncia hoje uma reforma ministerial que Lula sugere incansavelmente há meses, mas ela faz com tanto atraso, e num momento tão desfavorável, que o que era para reverter a favor pode se virar contra ela. Amargou durante tanto tempo o ônus das escolhas equivocadas e não consegue agora capitalizar o bônus de estar mudando tudo. O que poderia ter o impacto de um recomeço, é tratado como capitulação. A leitura é óbvia: Dilma não tinha saída e jogou a toalha.

O dilmista Aloizio Mercadante sai da estratégica Casa Civil e ganha a Educação como prêmio de consolação, quando a tal “pátria educadora” não sobrevive nem mais como slogan marqueteiro. E o lulista Jaques Wagner sai da Defesa para a Casa Civil, como o mandachuva da articulação política. Precisa dizer mais?

O efeito das mudanças, porém, ainda é nebuloso. O PMDB sai com sete pastas dessa reforma, que sacrifica técnicos como Arthur Chioro, da Saúde, e Janine Ribeiro, da Educação, para calar – ou seria comprar? – a bancada peemedebista da Câmara. Mas a primeira reação do Congresso, antes mesmo do anúncio oficial dos nomes, veio de duas formas: a aprovação da desaposentadoria, contra todos os apelos do Planalto, e um manifesto de 22 deputados do PMDB condenando a participação no governo.

Ou seja: Dilma engoliu o orgulho, o amor próprio, as ordens de Lula, a ganância do PMDB e o afastamento de Mercadante, e pode ser para nada. Além de não recuperar o controle da base aliada, ela pode perder ainda mais pontos na opinião pública e nas bases históricas do PT. “Pior do que já está (nas pesquisas)”?, descarta Jorge Viana, do PT. Mas sempre pode piorar, sim, senador.

O mais cruel da história é que Lula reassume o poder, os petistas e aliados históricos acham que agora vai, mas... Lula já não está mais acima do bem e do mal, como sempre esteve, nem mais tão por cima da carne seca assim, como estava ao descer a rampa do Planalto.

Documentos obtidos pelos repórteres Andreza Matais e Fábio Fabrini geram a suspeita de que houve compra de uma MP em 2009 para favorecer montadoras. Pior: no mesmo ano, um filho de Lula, Luís Cláudio, abriu uma empresa de marketing esportivo que recebeu a bagatela de R$ 2,4 milhões justamente de uma das empresas de “consultoria” que teria comprado a MP.

Cria-se uma situação esdrúxula: com Dilma, a economia não se recupera, a indústria vai ladeira abaixo e o dólar dispara, enquanto a política desanda e o Brasil parece na bica de ser rebaixado por uma segunda agência de risco. Mas, com Lula, vêm os escândalos de seus oito anos de governo, cada hora numa estatal, num órgão, numa repartição.

E o impeachment? O processo tem de ser aberto pela Câmara, mas o presidente Eduardo Cunha anda muito ocupado com revelações de três delatores da Lava Jato e, agora, com quatro contas na Suíça, num total de US$ 5 milhões (mais de R$ 20 milhões). Que moral ele tem para comandar um processo contra Dilma?

Conclusão: o impasse continua. Lula e o PMDB apropriam-se descaradamente do governo Dilma, que, segundo o Ibope, empacou no perigosíssimo patamar de 10% de aprovação, com 69% de desaprovação. Mas Lula e PMDB têm muito o que explicar para 100% da população. Com o sujo falando do mal-lavado, nada sai do lugar.

Suspense. Se Dilma não pode cortar nem Pesca, nem Portos, nem Aviação Civil..., como e onde ela vai de fato enxugar a farra dos ministérios, ao menos para inglês ver?
 

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