A morte do trader

POR IVAN SANT’ANNA 22 de novembro, 2017

Caro leitor,

Antes que vocês, caros leitores, se assustem com o título desta crônica, quero deixar claro que se trata de uma ficção, a primeira que faço nesta newsletter semanal.

* * *

Sempre torci para que minha vida terminasse de repente, com a morte me levando em pleno sono, e em plenos sonhos, como se fosse uma cegonha, na contramão da lenda, me capturando pela chaminé, alçando voo e indo dispersar meus átomos pelo éter. Sim, que no meio da noite eu simplesmente fosse embora, que meu coração parasse de bater, o pulmão, de respirar, o cérebro, de receber e de emitir sinais vitais e pronto. Rápida e sincronizadamente. Para que nenhum órgão sentisse, nem por um átimo, a ausência do outro. Que morressem juntos, harmonicamente, camaradas, solidários, numa boa. Como lâmpadas cujos filamentos se queimaram, apenas porque chegou sua hora.

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Eu queria morrer sem aflições, espasmos, dores ou estertores. Saída sem despedida, sem ver nem ser visto, sem chorar nem ser chorado em vida, que é muito mais trágico do que ser chorado morto. Queria morrer sem nenhuma percepção do meu ato mais solene, como se não fosse o protagonista do meu epílogo.

Outra variável que sempre admiti, como se fosse senhor de meu destino, era a de morrer num acidente de avião. Mas tinha de ser desses desastres rápidos, nos quais um jato comercial se choca contra uma montanha e o máximo, suponho, que um passageiro consegue perceber são os primeiros milionésimos de segundo do barulho do choque e os prolegômenos do primeiro clarão do cérebro explodindo.

Nada disso vai acontecer.

 

Não vou partir discretamente em meio ao sono, nem desintegrar-me com espalhafato na fuselagem de um avião. Estou morrendo aos poucos, no CTI de um hospital. Não de um hospital público, no qual a morte costuma ser relativamente rápida, pois tem sempre alguém esperando para encostar na vaga e os médicos precisam decidir quem vai já e quem só vai amanhã.

Pois é, para alongar meu martírio, estou num hospital dos bons, caríssimo, cuja filosofia de trabalho e plano de lucratividade passam por não deixar que as pessoas que têm bons convênios morram em paz e no momento justo.

Por isso eles estão me entupindo e desentupindo, ao norte e ao sul da linha da cintura, humilhando-me, explorando minhas cavidades naturais, criando outras, artificiais, agindo na contramão da natureza, invadindo pelas saídas, retrocedendo pelas entradas, injetando, ardilosamente, solventes e aglutinantes os mais diversos em minhas veias, ora para os rins, ora para o coração, como se estas carnes velhas, estes ossos abalados, e abaulados, estes músculos atrofiados e estas vísceras fétidas e necrosadas valessem a tentativa. Eu e eles sabemos que não valem. Nossa troca de olhares deixa flagrante a obscenidade e a falta de sentido de tais atos.

Felizmente, não sinto dores. Sinto incômodos, aflições, desânimo, medo, frustração, pânico, tristeza, decepção, mas não dores. Estou também perfeitamente lúcido. E me agarro à lucidez como se fosse um galho de despenhadeiro. Posso então me despedir dos bons momentos que vivi no mercado ao longo desses longos anos.

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Era um dia qualquer de 1958 e entrei pela primeira vez no pequeno salão, na sobreloja do edifício Acaiaca, no Centro de Belo Horizonte, onde funcionava a Bolsa de Valores de Minas Gerais. Comprei uma ação da Cia Siderúrgica Belgo Mineira e entreguei ao vendedor um cheque com o valor correspondente.

Na mesma BH dos anos 1950, rodei a manivela que fazia funcionar o magneto de um telefone preto e comprei e vendi dólares para, milagre dos milagres, um operador do Rio ou de São Paulo a 500 quilômetros de distância.

Outro dia, ou outra noite – as luzes imutáveis, o frio profilático e calculado e o branco insosso do CTI estão me roubando o sentido do tempo –, estremeci ao me lembrar de minha primeira alavancagem. Sim, comprei mais do que podia de algum colega que vendeu mais do que tinha.

Aqui, nu, gelado, entubado, encubado, encurvado feito um feto, o que me restou foi me lembrar do pregão da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em pleno bull market de 1971, no qual os espertos ganhavam muito e os bobos ganhavam pouco, mas todos ganhavam.

É dessas lembranças que me alimento, não das gotas que pingam nas minhas veias, 30 por minuto, 1.800 por hora, 43.200 por dia, cronometradas de modo que meu organismo não cometa o descuido de morrer antes da conta fechar.

Ah, e o open market… Como, por causa da inflação sem freios, era mais legitima defesa do que investimento, todo mundo tinha que aplicar. E nós, crupiês do dragão, ganhávamos muito quando alavancávamos muito e ganhávamos pouco quando alavancávamos pouco. Mas sempre ganhávamos.

Nestas horas de solidão e desencanto, estou me despedindo de cada um dos momentos dos quais consigo me lembrar, principalmente quando me mudei do Rio para o quinto andar do Four World Trade Center, em Nova York.

S&P 500, Treasury Bonds, libras esterlinas, marcos alemães, açúcar, café, cacau, suco de laranja, soja, farelo de soja, óleo de soja, trigo, milho, madeira, azeite de dendê (na bolsa da Malásia), feijão vermelho (na bolsa de Tóquio), barriga de porco, porco castrado, tudo isso eu “treidei” do cubículo que ocupava no prédio que Osama bin Laden iria destruir.

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Na hora do almoço, entre um naco de pizza ou um sushi, eu ganhava e perdia praticamente nos 24 fusos horários. E certamente ganhava mais do que perdia. Caso contrário não teria conseguido permanecer na profissão durante tantas décadas.

Será que todas essas lembranças morrerão comigo? Então não quero que desliguem nada, que mantenham o cronograma de minhas gotas sempre cronometrado.

Ou será que tudo isso é apenas um delírio, um pensamento confuso, e difuso, de um velho doente, e descrente, na cama de um hospital? Ou, quem sabe, essas coisas realmente aconteceram. Aconteceram comigo, acontecem com os outros e sempre acontecerão ao longo dos tempos. Pena que eu não vá testemunhá-las. Que não possa comprar uma call do Brasil com vencimento para daqui a mil anos e levá-lo até o exercício.