CHEGANDO AOS NOVENTA

A própria natureza humana nos conforta para encarar as limitações físicas e emocionais da idade com resignação, para que a nossa vida de idoso seja de calma, alegria e bem estar, dentro dos limites que a longevidade nos outorgou. Não podemos negligenciar as visitas aos médicos, os remédios de uso permanente, os tombos ocasionais que as nossas pernas teimam em nos premiar. Os nossos músculos não aceitam mais empurrar uma mesa, levantar um objeto acima das nossas cabeças, nem apanhar do chão uma moeda que caiu do nosso bolso Mesmo assim, é normal e indiferente olharmos no espelho o nosso rosto enrugado, os nossos cabelos brancos e os nossos ouvidos no tradicional hein, hein, hein... e verificar que fomos premiados com mais alguns aninhos de vida. E, assim, se possível, chegar aos 90.

Uma das incertezas dos jovens é pensar na crueza e na limitação da vida quando se aproximar a terceira idade. Nada mais incorreto podem crer. É normal e prazeroso ser idoso. É deitar à sombra de uma amendoeira frondosa sentindo a aragem da vida amaciar o seu desgastado corpo. Até os neurônios já combalidos pelo constante uso ainda conseguem injetar grandes alegrias e qualidade de vida aos idosos para compensar a perda do vigor físico já em processo de decadência. Os sonhos se multiplicam, a nossa criatividade parece se revigorar e o nosso bom senso ganha dimensões nunca imaginadas. Quem teve uma vida corrente recheada de valores morais como cidadania, trabalho, amor, perdão e algumas fantasias não precisa se preocupar com a rabugice e outros distúrbios próprios da idade maior.

A terceira idade é um manancial de conquistas muitas vezes negadas aos mais jovens em razão da correria destes para vencer na vida. Assistimos com curiosidade, mas sem emoção as boas e as más notícias. Nas longas filas dos caixas das lojas, bancos e mercados não fazemos cara feia na longa espera, sem abrir mão da prioridade aos idosos. Se atravessarmos uma rua movimentada, ajudados pela bengala ou pela mão de um jovem, o fazemos com a mesma alegria de um cãozinho puxado pela coleira.

A morosidade dos movimentos, a visão comprometida e os ouvidos surdos tornam-se uma verdadeira distinção para nos poupar a azáfama de ver e ouvir tolas desventuras deste mundo em ebulição. Os idosos não se importam mais em negar um favor ou emprestar dinheiro, pois não podem mais ser taxados de mesquinhos ou sovinas. Os atropelos da vida moderna não mais os assustam (exceção aos veículos que não respeitam a faixa dos pedestres) e muitos outros aparentes estorvos. Os achaques, as doencinhas e os remédios permanentes não lhes causam nenhuma inconveniência. Os desejos sexuais não os incomodam mais com as suas incertezas, pois o verdadeiro e puro amor atinge o ápice de qualidade nesta esplendorosa fase da vida com as rugas das nossas companheiras já brotando e a cumplicidade de, ainda, nos aquecer à noite e nos velar durante o dia para aumentar o nosso bem estar. A nossa inteligência intuitiva nos convida a ler muito, meditar e ter ímpetos literários e narrativos.

A única covardia que se fazem aos idosos é a limitação do tempo que ainda lhes resta para apreciar as maravilhas da vida. Do zero aos oitenta os seres humanos ganham anos infindáveis para sobreviverem com garra, merecimento e sonhos. A partir dos oitenta vislumbra-se uma sonegação ingrata dessa preciosa concessão para o idoso curtir os seus desígnios. A ciência precisa intensificar as suas pesquisas para encontrar a chave do tempo destinada a alargar a faixa da permanência na terra dos homens da terceira idade, para saborearem as delícias desta bela e doce vivência terrena.

José Batista Pinheiro, um idoso com 88 (Rio de Janeiro, 27.02.2018)