Movimento (Dos caminhoneiros)

Pelo jeito a coisa é mesmo assim e o pequeno que se lasque!!!

Pra entender a greve, esse texto foi enviado por um historiador que faz faculdade comigo:

Escrevi ontem sobre a greve mas ainda tem um bocado de gente confusa, então vou tentar ser mais didático.

Em primeiro lugar, vamos classificar esse trabalhador que a gente chama de "CAMINHONEIRO".

Entende-se por caminhoneiro todo aquele que ganha a vida dirigindo caminhão. Ponto. A definição para aqui, porque há caminhoneiros autônomos, há caminhoneiros MEI's e há caminhoneiros empregados com carteira assinada.

Outra informação que precisa ser compartilhada diz respeito à variedade e à natureza das cargas transportadas. Cada uma dessas cria um nicho. Há, por exemplo, os caminhoneiros que dirigem caminhões de lixo, de sucata, de carga seca, frigoríficos, de produtos inflamáveis, de água. carga viva (frangos, suínos, bovinos), graneleiros, silos, containers, cargas de peso e volume excessivo (reboque "lagartixa"), de veículos (cegonhas), reboques etc.

Os grande contratos de frete, aqueles que rendem fortunas, estão nas mãos de 1% das empresas. Citei a JSL S/A (Julio Simões Logística S/A) como a maior delas. Diria que a JSL é a Odebrecht do transporte e logística de cargas.

Para se ter uma ideia, a JSL tem contrato de frete com a rede Hortifruti, Piraquê, White Martins, Comlurb, Unilever, Honda, Kraft Foods, BRF Foods, Vale, Usiminas, VW, Ford, dentre outras.

Assim como a JSL, há outros grandes players no mercado de transporte rodoviário de cargas e logística, como a Martelli, Ouro Verde, SADA etc.

Para ficar bem claro, uma consulta no site da ANTT revela que no RNTRC (Registro Nacional dos Transportadores de carga), estão registrados 480.969 profissionais autônomos, que possuem uma frota de 659.622 veículos. Por outro lado, estão registradas 144.208 empresas, que possuem uma frota de 1.083.831 veículos.

Aqui a coisa começa a ficar ainda mais clara. As 200 maiores empresas de transporte do Brasil - as gigantes do mercado - possuem 40% da frota registrada por CNPJ, ou seja, as 200 maiores empresas do Brasil possuem uma frota de aproximadamente 400.000 veículos.

*A título de esclarecimento, uma empresa cuja frota seja composta de 200 caminhões, por exemplo, é considerada média; menos de 100 caminhões, é pequena; abaixo de 50, é classificada como EPP; menos de 20, é ME. Isso não é um dado oficial até porque esse enquadramento se dá muito mais por faturamento do que por tamanho de frota. Mas dá uma ideia básica da segmentação do setor.

Para essas empresas, as gigantes, representadas ontem na reunião do governo com o "setor", a greve acabou porque seus objetivos foram alcançados: desoneração do combustível de PIS/Cofins e CIDE, além da promessa de ficaram de fora do projeto de reoneração do governo federal.

Ocorre que a greve começou por iniciativa da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) e logo teve a adesão de outras tantas entidades representativas dos caminhoneiros autônomos, dos sindicatos dos caminhoneiros empregados e dos proprietários de pequenas e médias transportadoras. A principal entidade patronal (CNT), vendo no movimento uma excelente oportunidade para o atendimento de seus interesses, aderiu imediatamente e, pior, assumiu a narrativa dos fatos e a "negociação oficial".

Mas para essas outras, a pauta era bem diferente. Além da redução do preço do diesel, o estopim, sem dúvida, há outras pautas muito importantes. As condições de trabalho, não cobrança de pedágio para eixos suspensos e - acima de tudo - aprovação do PL 528/2015, que cria uma política de preço mínimo de transporte rodoviário de carga (frete) e foi aprovado pela Câmara e entregue ao Senado em 07/11/2017, onde descansa trancada em alguma gaveta do ilustríssimo Senador Romero Jucá, nomeado Relator do PL, que no Senado ganhou o nº 121/2017.

Ocorre que a aprovação de tal PL não interessa aos grandes grupos que detém o contrato original do frete e terceirizam aquilo que não dão conta através da lei selvagem da procura x oferta.

Se você é dono de uma pequena transportadora, com 50 veículos, por exemplo, você precisa de contratos para manter seus carros rodando. Você então se sujeita, fazer o quê?, já que não há legislação que determine um preço mínimo.

Quem merece nossa solidariedade são os MOTORISTAS, OS CAMINHONEIROS. São os autônomos e os pequenos/médios empresários explorados pelos grandes players e pelas grandes empresas que contratam seus fretes a preços medíocres.

A greve vai continuar, mas agora que os barões da estrada foram atendidos, a borracha vai cantar. É só esperar.

- escrito por João Medeiros 

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