1964, APENAS PARA OS JOVENS
...diante da honra vai a humildade. Pv 18:12

1964, APENAS PARA OS JOVENS

Sérgio Pinto Monteiro*

Esta é uma mensagem que este velho professor dirige aos jovens do meu país. Decidi redigi-la muito em função dos meus mais de trinta anos de magistério. A juventude sempre foi a maior razão de ser da minha carreira. Acho que aprendi mais do que ensinei. Confio na mocidade brasileira porque a entendo e valorizo. Sei das imensas dificuldades que vocês enfrentam, num país onde a educação, infelizmente, não é prioridade governamental. O magistério também não escapa desse lamentável contexto.

Não interpretem este artigo como uma defesa do Movimento Revolucionário de 1964 ou qualquer outra denominação que vocês utilizem para classificar a tomada do poder pelos militares em 1964. Não pretendo defender ou atacar posições políticas, muitos menos ainda, confrontar ideologias. Meu único objetivo é invocar o discernimento da juventude para o culto a VERDADE. Vale lembrar Winston Churchill: “a verdade é inconvertível. A calúnia pode atacá-la, a ignorância pode zombar dela, mas no fim, lá está ela, por inteiro.”

A opção por determinada interpretação de um fato histórico não deve ser baseada em nenhuma outra circunstância senão a VERDADE a ele inerente. Em caso contrário, estaremos defendendo a ignorância e até mesmo a calúnia. E como, então, atingir a VERDADE? Não há outro caminho para se chegar a ela, senão o da busca pessoal, através da pesquisa histórica.

Os acontecimentos de 1964 têm disponível uma farta documentação. O ideal para uma pesquisa confiável e isenta é a consulta à farta literatura existente, tendo o cuidado de mesclar os autores de modo a permitir o contraditório. O noticiário da mídia daquele período - amplamente disponível - também pode fornecer uma visão correta do cenário daqueles dias conturbados da vida nacional. Os depoimentos de participantes dos acontecimentos de 1964 são outra fonte a ser consultada, evidentemente com o devido senso crítico, já que há uma natural tendência de cada um apresentar a sua “verdade”. Também devemos estar atentos às mentiras e calúnias formuladas por oportunistas, radicais e fanáticos, descompromissados com qualquer propósito de verdade histórica.

E porque este velho mestre sugere aos mais jovens uma pesquisa pessoal sobre aqueles acontecimentos? A razão é por demais conhecida, principalmente dos mais antigos: a partir de 1964 instalou-se no meio acadêmico brasileiro uma ideologização do estudo da nossa história, principalmente contemporânea. Ou seja,abandonou-se a necessária isenção do analista e adotou-se uma leitura inverídica de todo aquele contexto. A resultante não poderia deixar de ser outra: gerações de estudantes e professores são submetidos a uma verdadeira lavagem cerebral onde, o que menos interessa é a verdade histórica.

Como corolário desse contexto, uma expressiva parcela da juventude brasileira é absolutamente mal informada sobre o período em tela. Todos nós, que já ultrapassamos a mocidade, sabemos das eternas características dos jovens. Não importa a geração, são sempre passionais, inovadores, rebeldes, contestadores e intensamente hormonais. Portanto, ávidos por mudanças e reformas. Suscetíveis, é claro, de extremismos e radicalismos. Por conseguinte, alvo fácil para os detratores da verdade.

A você, companheiro que começa uma jornada que para mim já vai longa, não se deixe iludir pelos trombeteiros da calúnia e da mentira. Estudem atentamente aquelas ocorrências de 64. Pesquisem e concluam livremente sobre os fatos. Cuidado para não se deixarem usar como massa de manobra. Observem que nas manifestações antidemocráticas e violentas realizadas junto ao Clube Militar no Rio de Janeiro, apenas jovens como vocês agrediram idosos que poderiam ser seus avôs e que, na maioria esmagadora das vezes, nada tiveram com as denúncias ali formuladas.

A você, jovem brasileiro que nesse lamentável episódio foi feito soldado da mentira, eu pergunto: onde estavam os que em 64 combateram a Revolução? Porque não apareceram na manifestação para, meio século depois, “enfrentarem” cara a cara aqueles senhores de cabelos brancos e andar vacilante? A resposta, todos sabemos. Preferiram, outra vez, lançar os jovens nessa triste aventura. E comodamente permaneceram em seus abastados gabinetes, favorecidos pelas benesses de um poder nem sempre legítimo.


*o autor é professor, historiador e Oficial do Exército, da Reserva Não Remunerada. É presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2, membro da Diretoria da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto Campo-Grandense de Cultura.
 

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